FONTE: OPUSDEI.org.br – 30/04/2007

Em 1998, Maria Laura Correia criou a empresa D&A; (Decoração & Artesanato Litúrgico) para promover a dignidade e a beleza do culto católico. Nesta entrevista, fala sobre o seu trabalho e os preparativos para a visita do Papa Bento XVI ao Brasil.

Maria Laura Faria dos Santos Correia é numerária do Opus Dei. Nasceu em Portugal e vive no Brasil desde 1960. Formou-se em Química e Marketing, mas sempre gostou muito de trabalhos manuais e arte sacra. Quando São Josemaria Escrivá visitou o Brasil em 1974, participou da confecção dos paramentos utilizados nas missas celebradas pelo fundador do Opus Dei.

Em 1998, criou a empresa D&A; (Decoração & Artesanato Litúrgico) para promover a dignidade do culto católico. Hoje, conta com uma competente equipe de bordadeiras e artesãs que desenvolvem peças únicas e de incrível variedade.

Com a vinda do Papa ao Brasil, a D&A; responsabilizou-se pelos paramentos que serão utilizados por Bento XVI nas Missas celebradas no Mosteiro de São Bento e na Basílica de Nossa Senhora Aparecida. A seguir, publicamos trechos de uma entrevista com Maria Laura.

Em 1980 e 1997, quando João Paulo II veio ao Brasil, você também ajudou na confecção de alguns objetos litúrgicos. Poderia contar como foi?

Em 1980, fizemos as alfaias para a Missa do Papa no Aterro do Flamengo. Confeccionamos as toalhas conforme as medidas que nos passaram do altar. Sob as toalhas, colocaríamos uma forração de veludo com o escudo de João Paulo II.

Chegamos no dia anterior à Missa para colocar os panos. O altar já estava pronto, mas as dimensões indicadas pela Santa Sé não foram respeitadas. Era menor. Resultado: passamos a noite inteira no Aterro do Flamengo construindo um novo altar com a ajuda de um arquiteto, responsável pela parte artística do evento, e quatro marceneiros.

Na pala (um objeto litúrgico que vai sobre o cálice), bordamos a Virgem de Czestochowa. As pessoas que estavam próximas ao Papa durante a consagração notaram a alegre surpresa de João Paulo II ao descobrir a imagem da padroeira da Polônia.

No mesmo dia, fomos para Curitiba. Também confeccionamos as alfaias para a Missa que o Papa celebrou lá. Passamos, mais uma vez, a noite inteira organizando tudo. Pela manhã, ocorreu um fato inesperado. Pretendíamos voltar para casa para nos arrumar e voltar para a celebração. A equipe de segurança do evento não nos deixou sair do perímetro onde estava o altar e as cadeiras para autoridades civis e eclesiásticas. Disse que eram “ordem superiores”: “ninguém entra, ninguém sai até a hora do evento”. Tentamos argumentar, mas não houve jeito. Sem dúvida, a situação tinha um lado bom: durante a Missa, ficamos bem próximas de João Paulo II.

Bordado que estará na mitra do Papa em Aparecida.

Em 1997, o Papa voltou ao Brasil. Inaugurou a nova Catedral do Rio de Janeiro. Fizemos as toalhas e outros ornamentos: um grande panô com a figura do Bom Pastor e outro com a imagem da Sagrada Família. O primeiro ficou bem na frente do altar e o segundo decorou a parede da sacristia. Um dos momentos mais emocionantes foi quando João Paulo II incensou o altar. Ele notou a imagem de Nossa Senhora Aparecida que decorava a toalha que havíamos confeccionado para cobrir o ambão. Aproximou-se dela, permaneceu alguns segundos em oração e, manifestando grande satisfação, incensou-a. Eu estava perto do presbitério e pude acompanhar toda a cena.

Você está trabalhando agora nos paramentos que o Papa Bento XVI utilizará no Brasil. Recebeu alguma indicação concreta da Santa Sé?

A pedido de d. Raymundo Damasceno (Arcebispo de Aparecida), estivemos em Roma para conversar com Mons. Piero Marini (cerimoniário das celebrações litúrgicas pontifícias). Ele nos levou a sacristia papal. Pedimos orientações e sugestões.

Respondeu-nos que não seria conveniente confeccionar uma casula com galão central para o Papa, pois não forma um conjunto harmonioso com o pálio. (O galão central é uma tira de tecido mais grosso, de outra cor ou tonalidade, que ornamenta a parte da frente e de trás da casula. O pálio é uma faixa de lã branca com cruzes negras que o Papa usa ao redor do pescoço nas Missas).

Para a Missa em Aparecida do Norte, disse-nos que seria conveniente utilizar um simbolismo mariano, pois a celebração ocorrerá numa Basílica dedicada a Virgem e no dia de Nossa Senhora de Fátima. Sugerimos algumas idéias de temas clássicos relacionados a Maria: a rosa, a estrela, as iniciais AM (de Ave Maria), a coroa… mas, ele nos disse: “Pensem em algo um pouquinho diferente… algo não convencional… vocês tem carta branca”.

A concha representa Maria que acolheu no seu seio a pérola: Cristo.

Encontramos então um belíssimo símbolo em Santo Efrém: a concha com uma pérola dentro. A concha representa Maria que concebe no seu seio a pérola: Cristo. Quando d. Marini soube desta idéia gostou muitíssimo: a imagem é muito rica e estava completamente esquecida. Naturalmente, a concha era um motivo que já aparecia em muitos paramentos… mas sem a pérola e com um significado diferente: como uma representação do nosso estado de peregrinos rumo ao Céu.

Repetimos uma idéia da visita de João Paulo II em 1980: a pala que Bento XVI utilizará na Missa em Aparecida conterá uma imagem da Virgem de Altötting, a principal invocação mariana da sua terra natal.

A D&A; conta com alguma ajuda para a confecção dos parâmentos?

A D&A; entra apenas com o know-how e a mão-de-obra. Por isso, promovemos uma rede de pessoas dispostas a ajudar.

Os tecidos que serão utilizados para a confecção das casulas, por exemplo, foram quase totalmente custeados pela Têxtil Tapecol S/A do sr. Paulo Sieh. Não é pouca coisa, já que, além da casula do Papa, confeccionamos todas as casulas que os bispos da América Latina utilizarão na Missa de abertura do V CELAM.

Casula que será utilizada pelos bispos na Missa de abertura do V CELAM.

Clientes da D&A; também tomaram a iniciativa. O pe. Marcelo Leite, por exemplo, ofereceu-nos a ajuda de paroquianos da Paróquia São Pedro e São Paulo que desejavam contribuir de alguma forma para a visita do Papa.

Além dos paramentos, D. Raymundo também nos pediu que decorássemos a ala do prédio onde o Papa e sua comitiva irá se hospedar em Aparecida. Conseguimos doações de vários antiquários da Avenida São João. A Móveis Marinho e a Indústria e Comércio de Roupas Chohfi também contribuíram.

Estes são só alguns exemplos. Não conseguiríamos fazer nada sem a generosidade de muitas pessoas.

Como você encara o seu trabalho?

Como muitas pessoas, aprendi com São Josemaria que o cuidado e o carinho com a liturgia é uma forma maravilhosa de manifestar nosso amor a Cristo e a Igreja. E é também uma forma de aproximar as pessoas de Deus. A beleza das cerimônias litúrgicas torna Cristo e o seu mistério mais próximo dos homens.

Há algum tempo, um padre me disse: “A batina que comprei aqui foi responsável por uma vocação”. Depois, contou-me a seguinte história: um jovem parou-lhe na rua (ele estava de batina) e disse: “Há muito tempo queria encontrar um sacerdote para conversar… o senhor tem um minuto?”. Aquele rapaz decidiu-se, depois, a entrar no seminário.

Matéria: Leonardo Freitas e Alexandre Gonçalves

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